Quando o futebol vira página de livro

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Ana Clemente

9/21/20263 min read

Como a paixão pelo futebol ajudou a levar a literatura russa para o centro das conversas entre torcedores

Você já imaginou um jogador de futebol fazendo um clássico da literatura russa chegar ao topo das listas de livros mais vendidos do Brasil?

Essa história começou com uma leitura e ganhou força nas redes sociais.

Conhecido também por compartilhar seu interesse pela literatura, Gustavo Scarpa publicou uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch, obra do escritor russo Liev Tolstói. O que poderia ser apenas uma indicação literária acabou alcançando um público muito maior.

O livro ganhou destaque nas vendas, chegou ao topo da Amazon e chamou a atenção de torcedores do Atlético-MG.

Mas a história não terminou ali.

Quando a torcida também começa a ler

A repercussão da indicação ajudou a despertar uma ideia entre torcedores: por que não transformar aquela experiência individual de leitura em uma experiência coletiva?

Foi assim que nasceu a GALEITURA, um clube do livro criado por torcedores e torcedoras do Atlético-MG que passaram a se reunir para ler e discutir obras indicadas por Scarpa.

A iniciativa mostra como a cultura do futebol pode ultrapassar os limites das quatro linhas.

A arquibancada, tradicionalmente associada aos cantos, bandeiras, camisas e discussões sobre futebol, ganhou também espaço para livros, autores, personagens e debates sobre literatura.

Do ídolo ao leitor

O fenômeno também levanta uma questão interessante: qual é o impacto de um atleta quando ele compartilha interesses que vão além do esporte?

Jogadores de futebol ocupam um espaço de enorme visibilidade na sociedade. Quando um atleta fala sobre um livro, um filme, uma música ou qualquer outra manifestação cultural, sua influência pode alcançar públicos que talvez não tivessem contato com aquele conteúdo por outros caminhos.

No caso de Scarpa, uma indicação literária encontrou uma torcida apaixonada e transformou uma leitura individual em uma experiência coletiva.

Não se trata apenas de vender livros. Trata-se de criar uma ponte.

De um lado, o futebol. Do outro, a literatura. No meio, milhões de pessoas dispostas a descobrir novas histórias.

A torcida como espaço de cultura

A GALEITURA também ajuda a pensar a torcida de uma maneira diferente.

Torcer não significa apenas acompanhar partidas ou discutir resultados. As torcidas são formadas por pessoas com diferentes histórias, interesses e formas de enxergar o mundo. O futebol pode funcionar como ponto de encontro para experiências que vão muito além do jogo.

Quando torcedores se reúnem para ler Tolstói, discutir personagens e compartilhar interpretações, o futebol passa a funcionar como uma porta de entrada para outro universo.

E talvez seja justamente aí que esteja a força dessa história.

Um livro indicado por um jogador chega a uma torcida. A torcida começa a ler. A leitura gera conversa. A conversa cria comunidade.

E a comunidade transforma a relação com a própria cultura.

O futebol também pode formar leitores

A história de Scarpa e da GALEITURA revela uma possibilidade interessante: o futebol pode ser também um instrumento de aproximação com a leitura.

Em um país onde o esporte ocupa um espaço tão importante no imaginário social, iniciativas como essa mostram que a paixão pelo futebol pode dialogar com outras formas de conhecimento e expressão cultural.

No fim, talvez a grande vitória dessa história não esteja em uma tabela de vendas ou no topo de uma lista.

Está na descoberta de um livro.

Na conversa entre torcedores.

Na curiosidade despertada por uma indicação.

E na possibilidade de que alguém, pela primeira vez, tenha aberto Tolstói porque um jogador de futebol falou sobre literatura.

Quando o futebol vira página de livro, a torcida também pode descobrir novas maneiras de enxergar o mundo.